Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010


Noa actuou no NB Viseu e falou da sua carreira

"Tocar violino é um
gesto de bondade"
Violinista, professora,
directora de uma
associação de
solidariedade. Eis o retrato
de Noa, artista que actuou
no NB Viseu e que antes
de ser violinista começou
por ser bailarina
PAULO RIBEIRO

Diário de Viseu (DV) - Como
começou o seu percurso musical?
Noa (N) - A minha formação
artística não começou com o
violino. Aos 6 anos entrei para
o Ballet Clássico pela Royal
Academy of Dancing, numa
academia em Vila Nova de
Gaia. Só mais tarde, aos 10 anos,
os meus pais me propuseram
entrar para um instrumento e
foi aí que decidi enveredar pelo
violino. No fundo, foi uma
sequência de acontecimentos e
de contextos que me fizeram
apaixonar pela cena do palco.
Mais tarde, meti na cabeça que
queria aprender a tocar jazz e
blues e tive a sorte de apanhar o
melhor dos melhores em
improvisação em Portugal. Fui
para a Escola de Jazz do Porto
sob a mestria de Alberto Jorge
(uma lenda viva) que, recentemente,
contratei para ter aulas
particulares. Não acredito que a
aprendizagem de um instrumento
seja ditada pelo fim de
um curso académico e só
sendo assim é que continuo a
querer aprender sempre mais.

DV - Dos vários músicos que
conhece, qual aquele por quem
tem mais admiração? Porquê?
N - Sem dúvida que o facto
de tocar violino noutro tipo de
"ambiente" musical, completamente
diferente daquele a que
fui habituada em 15 anos, fazme
ter uma cultura musical
muito mais diversificada e
abrangente. No registo rítmico,
da percussão, em live act, gosto
particularmente do Manu
Idhra. Acho-o um músico
incansável e com um forte
sexto sentido para a música.

DV - Como vê a actualidade
do mercado musical?
N- Não sou uma pessoa derrotista.
Pelo contrário, o meu
optimismo não me permite
deixar abalar por qualquer contingência,
quer ela surja do interior,
quer surja do exterior.
Toda a conjuntura de crise obriga
a originalidade, a aparecerem
coisas novas. A crise gera
criatividade! É o lado positivo
da crise. Acho que o panorama
musical vai melhorar, não porque
o contexto exterior vá
melhorar, mas porque os artistas
portugueses vão "dar a volta
ao assunto" e surgirão produtos
cada vez melhores e mias originais.

DV - Para si tocar é...
N - Para mim tocar é falar.
Dar voz ao meu sentimento e
torná-lo audível através do violino.

DV - Prepara-se de algum
modo especial antes dos espectáculos?
N - Todos os dias quando
estudo, penso na forma como
irei apresentar a música. Toda a
actuação é pensada por mim
desde a roupa até às imagens
no vídeo. Procuro entrar em
contacto com os dj's e chegar a
um consenso antes da própria
actuação.

DV - Que projectos tem para
o futuro?
N- Como professora que sou,
o meu futuro passa por abrir
uma escola, não só de música
mas também com uma forte
vertente social. Sou uma das
directoras de uma associação
de apoio aos sem-abrigo na
cidade do Porto (FAS+) e por
isso me preocupa tanto desenvolver
o cariz social e humanitário
dentro de cada aluno
meu. De certa forma, a música,
tocar violino é um gesto de
bondade porque "faz bem" a
quem ouve.

29 janeiro 2010

Terça-feira, Janeiro 12, 2010

beatriz

de novo no comboio, esta palavra só me traz à cabeça a maria joão pendurada na ponte 25 de abril.
fizeste ontem 11 anos e tens já tanta coisa às tuas costas. queria-te dizer o que senti, a primeira vez que te vi. lembro-me que vestia umas calças ridículas largas tipo serapilheira, daquelas que se usavam e parecia um palhaço. lembro-me de estar sozinha na sala de espera do hospital e sentir o cheiro quente e doente de um hospital. lembro-me da cidade molhada com a luz lavada de um sol acabado de nascer, como tu. leva-me a memória do momento em que me chamaram para te ir ver "a mamã vem aí". deve ter sido o nosso papá. enquanto um enfermeiro de branco empurrava a marquesa, tu e a mamã dobraram a esquina do corredor deitadas, aconchegadas uma na outra. lembro-me de perder as forças e encostar-me contra a parede, a chorar torrencialmente. o meu pai "lia, então?".

beatriz

foste o bebé mais bonito que eu vi na minha vida toda.
e tu sabes que eu estou farta de ver bebés e crianças, há anos.

foste o bebé mais bonito que eu vi na minha vida toda.

uns meses mais tarde, quando já nos tínhamos habituado a adormecer-te a cantar, ainda segurando essa beleza diabólica que possuis até hoje, cantei-te pela primeira vez "a tua canção" que ficaria tua para sempre até hoje. ainda agora não sei o título. cantavam-na os silence four, uma cover de uma banda inglesa qualquer, acho: i tried to discovered, a little something to.... não sei mais e tu também nunca pareceste importar-te com isso. give a little respect to me. a little respect, isso mesmo.

quando me perguntam pelo momento mais marcante na minha vida, só posso dizer que envolve cavalos: brasil, praia cheia de gente e eu a cavalgar como uma doida na orla "espumenta" pronta a levar alguém à frente e um outro evento com cavalos ( e tu sabes do que é que estou a falar, porque és inteligente) ...e tu! quando te vi pela primeira vez e que chorei até ficar sem forças perante a tua beleza que ainda hoje é constrangedora. e depois não é só isso! é a tua simpatia com quem não conheces, o teu à-vontade com a improvisação natural da vida, a tua inteligência na escola, o teu humor (ris-te e percebes as piadas que, teoricamente, são de adultos) e ainda fazes umas novas, por cima. a tua elegância petrarquista. poderias ser perfeitamente a musa de camões aquando da feitura de um qualquer poema imortal, dos dele. o teu corpo alto e esguio,a tua delicadeza em não magoares as pessoas. és belíssima, beatriz, e, como toda as mulheres belas, tens uma responsabilidade acrescida. mas eu acho que tu com isso pods bem: a angariação que organizaste na tua escolinha aos 8 ou 9 anos foi bem exemplo disso mesmo. és bela, beatriz. tens um coração belo.

é uma benção ter-te como irmã. parabéns


21'33/comboio para lx/3ªfeira

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

under brazillian skies

a primeira vez. lá está, voltamos sempre a falar em primeiras vezes, em momentos de epifania espontânea. sou particularmente achacada a mudanças de 90graus (procurar neste teclado brasileiro a tecla do ¨ozinho¨ para colocar em cima dos 90, tornou-se por instantes uma empresa hercúlea a qual não me sinto com a menor força para envergar. fica assim por extenso = 90graus).

depois continua, acabou o tempo de internet!

Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

apesar de portista ferrenha, nunca fui mais de cinco vezes a um estádio, durante toda a minha longínqua vida. foi o suficiente, no entanto, para perceber que o que verdadeiramente me intrigava e atraía ao mesmo tempo, era o que se passava nas bancadas. as emoções estão plenamente a nú, desprotegidas e, quem assiste, está momentaneamente submisso aos estímulos do relvado. a mais ponderada acaba por cair numa verborreia de impropérios impossíveis de acontecer em contexto quotidiano. o tendencioso para a violência encontra aqui, em espaço mais curto de tempo, o habitat ideal para exorcizar os seus ímpetos mais cruéis. mas quando o momento é de alegria, todos eles se unem numa onda que avassala o estádio e o faz tremer até aos alicerces. por isso raramente vejo os jogos de futebol em si!

o que me move em palco é esta mesma onda de júbilo. saber que cada actuação é única e vai marcar, de certa forma, quem o assiste: é esta a minha glória. é o que me mexe nas entranhas e me faz querer mais. às páginas tantas, em Viseu, dei por mim a estimular o público em coreografias vocais, em coreografias físicas, alternados, agora ao contrário, agora a fazer o pino, todo o público a vibrar e a delirar e, na tal corrente que se formou, todos nós fomos de uma só massa por instantes.


14h40/combóio para lx

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

a última lição

quando um professor abre o livro de ponto pronto a sumariar a lição e pergunta à turma quem falta nesse dia, não há expectativa no ouvir de um número de 1 a 25. quando nos dias anteriores, o número 2 faltou sucessivamente, concerteza é porque esteve doente. da garganta talvez, das amígdalas

(que bom, vai-se fartar de comer gelados)

o arrepio obrigou-me a fechar os olhos enojada com a fotografia que reconhecia no jornal esquálido que o meu colega tinha na mão.

não pode ser, helder. o puto anda aí a brincar com os colegas. voces estão enganados.

e os meus olhos esbugalhados revolviam os meninos a brincar no recreio. trespassavam-nos. o andré devia andar lá para trás da escola velha e obsoleta. se não estava aqui é porque tinha ido ao quarto de banho.


não percebi o que me disseram à primeira.
o andré era o típico aluno que não se enquadrava na idade cronológica que tinha. inteligentíssimo. sempre com perguntas que me demoravam uns segundos a arquitectar a resposta. olhos grandes castanhos desafiadores, desprotegidos. muito pequenino para a idade, adorava dançar e só aí esticava os cantos da boca até parecer um sorriso. nunca se ria quando os outros meninos se riam. nunca se ria se alguém caía ou fazia um disparate. nunca gozava os colegas. o mais atento. quantas vezes tive de inventar respostas impossiveis. tão inverosímeis para os adultos; tão normais para as crianças

professora, o que é a cultura de um povo?

andré, não me lembro da tua voz. lembro-me da tua expressão fechada a por as minhas respostas a fazerem sentido na tua cabeça. quantas vezes te desiludi? quando vi que tinhas faltado ontem, juro-te, pensei que tivesses ido ao médico.

perdoa tu à tua mãe, andré. se ela sobreviver e ficar cá connosco, nós falamos com ela, mas, se ela for para a tua beira faz por desculpá-la e dá-lhe um beijinho. parece que te estou a ver a perguntar-me

"porquê"

ANDRÉ

e depois de uns segundos arrastados acho que te explicaria qualquer coisa sobre a pressa que a tua mãe tinha de estar só contigo, os dois juntos, num sítio bonito em que ela não sofresse

"porquê?"

ANDRÉ

porque tu cresces muito rápido e és muito inteligente e ela não queria que tu soubesses que ela chorava muito à noite

"porquê"

ANDRÉ

não sei, andré, se calhar foi a forma que ela teve de te dizer que te amava muito
(expressão fechada)


os meninos hoje cantaram-te uma música, aquela que também estavas a aprender. Longe do Mundo. irónico, não é? esquece

ANDRÉ

depois explico. hastearam a bandeira de portugal para ti e fizeram um minuto de silêncio, mas tu não queres nada disso. nem entendes por que fariam tal coisa. queres é ver os vídeos do andré rieu e dos stomp e eu juro-te que vi aquela cultura a entrar-te, em ondas, pelos teus olhos de sol adentro.



1'58/home abraçada

vertical pasmado

o combóio sempre foi um bom meio de transporte para actualizar leituras: não se enjoa como num automóvel e o tempo decorrido entre a departure e os arrivals é sempre suficiente para dar bom avanço à letargia literária imposta pela falta de tempo ou vontade. uma viagem de três horas foi o suficiente para me aperceber deste burburinho blogueiro sobre a possível abolição dos pontos de exclamação(!).

inês pedrosa levou o assunto ao extremo sexual, advogando a permanência de tal sinalética pois, qual melhor ponto gráfico para exprimir um orgasmo?

depois de dias passados sem o editor dar noticias sobre os manuscritos d' Os Miseráveis, Vitor Hugo enviou-lhe uma carta com a seguinte mensagem:



?



ao que passado pouco tempo, obteve a seguinte resposta:



!




1'16/home/andré, tenho uma vela branca a arder por ti.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

porque

De vez em quando, desapareço. não é a primeira vez nem concerteza será a última. sinto, no entanto, que voltar é sempre catártico. acho que "falámos" sobre isso aqui: volver. Eis o que tenho andado a fazer:

Noa


e porquê este nome: é o nome que poria um dia que tivesse uma filha. um filho não é uma extensão, de nada nem de ninguém. é um ser uno, individual e singular. não tem de vir, ao nascer, com qualquer tipo de estigma, de karma. começar do início, porque é mesmo o que quer dizer: nascer. surgir com toda a sua individualidade e elevar-se.


"... por cima de ti, só os aviões!"


20'17/Miramar

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

conversas com deus sobre ti

à minha avó


calhou de O
encontrar, vovó. e ele perguntou-me logo por ti. estranha forma de vida a tua, deixou ele escapar,inconformado enquanto coçava a barbicha.
escrevi-te, há uns anos atrás, ainda eram palavras de criança que me saíam pela boca fora, que Deus se inspirava em ti, todos os dias da sua vida para recriar a sua obra. lembras-te? terá sido tudo isto por vontade de deus? não te disse antes mas chateei-me com ele. deitou-te numa cama de tristeza e aconchegou-te com cobertores de dor aos quais resististe estoicamente durante toda a tua vida. no fundo, acho que ele não fez por mal: não sabia mais. como as pessoas que te rodeiam não te percebem. com que voz choras tu teu triste fado? elas não sabem mais, perdoa-lhes pois não sabem o que fazem. "a melhor forma de cuidar de um pássaro não é segurar-lhe as asas" mia couto, tem aspecto de provébio africano.
ainda hoje ele não te sabe explicar. como não sabe explicar amália. equiparo-te a amália, desde sempre. desde a fisionomia que recordo a preto e branco, riso triste de lábios finos. quem vê teu rosto não vê teu coração que cabe na palma da mão. as almas giram à tua volta e nem tu controlas o teu poder. deixas-te entontecer com a luz que emanas e é ela que te alimenta, de outra forma, ninguém aguentaria. e ainda que te continuem a amputar os teus membros, nem assim calam o teu tom de voz magoado, a gargalhada estridente que deus te pôs no peito e soltas num espaço sem fim, a cantar. que faremos sem ti? que andorinha nos guiará neste fado? és o exemplo do discípulo que suplantou o mestre. deus não te sabe explicar, vovó. disse-me ele como pôs estrelas no céu, como se desfia um rosário de penas.

- ama lia ama

ainda sentes o cheiro das rosas em enfermaria lúgubre? falei-lhe nisso quando o encontrei. disse-me que enviara um anjo para te responder. nunca mais faças perguntas daquelas, vovó. coitado, embaraçaste deus. tens um séquito de anjos que te aguardam de cabeça baixa e asas altivas prontas a te levarem quando te apetecer morrer. deus não te sabe explicar. e saiu correndo com as mãos nos olhos a chorar.



1'36/na minha cidade